Teopoética Litúrgica e a Estética da Noite – “Faz Escuro Mas Eu Canto”

Teopoética Litúrgica e a Estética da Noite

 “Faz Escuro Mas Eu Canto”

 

Fogo!… Queimaram Palmares, Nasceu Canudos.

Fogo!… Queimaram Canudos, Nasceu Caldeirões.

Fogo!… Queimaram Caldeirões, Nasceu Pau De Colher.

Fogo!… Queimaram Pau De Colher…

E Nasceram, Tantas Outras Comunidades Que Os Vão Cansar Se Continuarem Queimando.

Porque Mesmo Que Queimam A Escrita, Não Queimarão A Oralidade.

Mesmo que Queimem Os Símbolos, Não Queimarão Os Significados.

Mesmo Queimando O Nosso Povo

Não Queimarão A Ancestralidade.

Nego Bispo

Antônio Bispo Dos Santos Quilombo Saco Curtume

Em São João Do Piauí/PI[1]

Vivemos tempos sombrios. O mundo vai se escurecendo, e caminhando para lugares lúgubres onde a norte, o abandono e o descaso vão se fazendo a vida viver em estado perene de exceção. Tudo estirado, tudo se perdendo, tudo se arrebentando. O capitalismo capitaneia a pauperização econômica do mundo, o neoliberalismo controla o estado e as leis e o fascismo é aparelho manufaturado do estado para conter resistências e prometer o braço forte contra as minorias e aqueles que querem simplesmente viver com alguma dignidade: gays, índios, mulheres, bandidos e pobres. Já não há espaços de guarida e o ataque é constante. As famílias estão fraturadas, gente pobre votando contra elas mesmas. Vamos perdendo tudo o que demorou anos de conquista. Tudo vai se despedaçando, desmoronando, indo embora. Vivemos num samba de uma nota só: a perda. Perdemos o direito a escola, perdemos os direitos de trabalhadores, perdemos o direito a protestar sem sermos presos, perdemos a imagem de Deus, vamos perdemos o direito à saúde e o ensino livre e crítico.

 

Somos atacados de dia e de noite. Não temos clínicas de saúde física e mental. Somos atacados diariamente com novas bombas de efeito moral destruindo o que achávamos intocável como humano. Todo se queima como arquivo morte e sem sentido. Nossa memória não vale nada como não vale nada o Museu Nacional. Somos papelão entumecidos no álcool prontos pra fogueira dos poderosos. Em toda parte vamos descobrindo que o mundo não é e nunca foi lugar de democracia e liberdade e cuidado mútuo mas sim um instrumento do capitalismo. A democracia é o modernismo e sandice das oligargquias financeiras. Somente agora vamos tendo a sensação pela qual as minorias sempre viveram: vida sob opressão, violência, destruição e em constante estado de exceção. O diabo do nosso tempo, o neoliberalismo que veio pra mater roubar e destruir como disse Jesus in João 10:10. E o diabo/demônio neoliberal vai empilhando seus mortos, e criando feridas na alma e no corpo das pessoas e da sociedade toda que vai ficando cada vez mais difícil resistir e existir.

 

Roger Douglas, Ministro das Finanças da Nova Zelândia entre 1984-1988 descreveu a forma como o poder deve agir no mundo de hoje:

 

Não tentem avançar passo a passo. Definam claramente seus objetivos e se aproximem deles em saltos qualitativos, para que os interesses das classes não tenham tempo de se mobilizar e atrapalhar vocês. A rapidez é essencial e nunca vai depressa o bastante. Iniciado o programa de reformas, não parem até vê-lo concluído: o fogo do inimigo perde em precisão quando tem de atingir um adversário sempre em movimento.[2]

 

A estratégia é desaregimentar, é estatelar e congelar as emoções, é deprimir o espírito e arrancar de nós qualquer sensação de força. A administração de Donald Trump nos Estados Unidos teve essa mesma iniciativa nos primeiros cem dias de governo. Uma avalanche de mudanças e perdas e desastres que era quase impossível respirar, muito menos se organizar ou tentar pensar qualquer assunto por mais de algumas horas até que o próximo desastre fosse anunciado.

 

Diante dessa rapidez não conseguimos articular o pensamento, criar movimentos de defesa, se arregimentar em forças coletivas. E mais, não conseguimos cuidar do espírito e das emoções que se vivem estiradas. Vamos literalmente nos perdendo no meio do caminho e de dentro de nós e uma exaustão social e emocional vai nos tomando conta. Nos dividimos em nossas respostas, nossa visão fica reduzida, não conseguimos nos unir em movimentos mais coesos e assim vamos sendo submergidos por brutalidades sem fim. A depressão é risco constante para quem quer uma sociedade mais justa ou mesmo para sobreviver diante de autoritarismos que roubam, matam e destrói.

 

Haverá um lugar ao sol para todos? Pois é exatamente nessa busca por um lugar ao sol que a teopoesia se exaspera! Porque corremos para o sol e não nos aprofundamos na noite. Não teremos o sol se não vivermos a noite, se não tomarmos a noite como nosso lugar teológico-poético, nossa epistemologia de espaço e tempo. O dia somente poderá ser vivido com coragem se a alma souber lidar com o medo da noite.

 

A modernidade é o lugar das luzes, e o iluminismo pregava contra a idade das trevas. Mas essa modernidade europeia sempre nos deixou nas sombras da história sempre iluminou a si mesmo, suas referências e sua história do tempo e do espaço fazendo com que o sul do mundo fosse não mais do que a lanterna dos seus afogados. A sabedoria indígena, a filosofia africana, a lucidez feminina, os conhecimentos de nossas mães e avós nunca passaram de superstição, adjacências e epílogos da história do iluminismo europeu. Pois é contra essa luminosidade modernista europeia que a tudo as-sombra e contra um iluminismo que somente ilumina a si mesmo, que reclamamos a noite, a sombra, os vultos, a escuridão como nosso lugar de pensar e sentir e viver.

 

Precisamos nos acostumar com a noite pois o povo oprimido sempre viveu na noite da história. Foi na noite escura da alma, dos medos do coração, da angústia do corpo, dos assombros da mente e da sombra do conhecimento que o povo marginalizado resistiu e ainda vive. É na noite do deserto e não na luminosidade das leis anti-migratórias dos Estados Unidos que achamos sabedoria para entender do que a vida é feita. É na noite das casas mais simples que a vida se refaz sem ter muito como sobreviver. É na noite que buscamos solidariedade e companhia.

 

A teologia cristã racionalista nunca foi capaz de dar conta da noite. Sempre se fez nas luzes das certezas do dia contra as incertezas e os medos da noite. Pois essa teologia não nos serve mais. Precisamos que a poesia nos oriente em nosso trabalho teológico. É preciso a poesia, a teo-poesia, para achar um jeito de teorizar o impossível, de levantar tendas improvisadas no meio da desolação, de achar Deus no mundo dos des-graçados.

 

Pois há uma qualidade da noite que é inventiva, que pausa, cria, conjura e conecta palavras que não vivem na luz do dia e que estão esperando serem despertadas para novos sentidos e possibilidades. Palavras que não nasçam do medo do pensamento abstrato mas do respirar de corpos reais. Palavras que consigam carregar monstruosidades de pensamentos racionais a-diversos e sustentar dialéticas e paradoxos. Precisamos a prender a usar palavras durante a noite, palavras que que precisam ser ditas, ou melhor, bem-ditas. Durante a noite, nossos corpos sentem o peso do dia e precisam de alimento e reabastecimento. Durante a noite, nossos corpos precisam ser acariciados com palavras que curem e deem força para o dia seguinte. Precisamos de um Deus que se viva e nos visite durante a noite. Um Deus absconditus que se manifesta na luminosidade das nossas próprias trevas. Um Deus que se esconde para quem o procura na luz do dia mas se revela para quem o busca nos torvelinhos e rodamoinhos da noite. Um Deus que despreza os poderosos durante o dia em suas mancomunações de traição à noite mas que sustenta o trabalho dos vulneráveis durante o dia e os sustenta em seus momentos de maior fragilidade durante a noite.

 

Fazer teopoética durante a noite é aprender a ficar sozinho consigo mesmo e com Derus nos momentos de solidão e medo. Durante a noite lutamos com as preocupações e ansiedades do dia que continuam vivos durante a noite. À noite as dores não resolvidas se avolumam e a vida escancarada pela falta de possibilidades, pelo abandono e pela incerteza são como visões fantasmagóricas que nos flagelam entre realidades e nosso imaginário. Esses tantos fantasmas de passados não resolvidos e de presentes não anunciados são como visitas não solicitadas, conhecedoras de nós mesmos. As criaturas noturnas amplificam os medos do dia, e nos lembram dos medos do dia anterior e do dia seguinte. Mas é na noite que descobrimos como disse Dorothee Soelle, as “riquezas do self.”[3]Quando não temos medo de nós mesmos, quando assuminos nossa companhia como salutar, enriquecedora e aconchegante, e somos capazes de pensar a nós mesmos, então somos capazes de ouvir os gritos do medo, os sussurros das auto-enganações, e os cantos das sereias. E assim estamos prontos para lugar no mundo!

 

Esse processo é difícil e complicado e a teopoesia é nossa companheira. A teopoesia nos ajuda a busca por artistas que sabem de nossas fragilidades e nos fortalecem a alma e o corpo. Pois os artistas sabem escurecer nossos dias e iluminar nossas noites. Como o cantor Brasileiro Thiago de Mello que canta

 

Faz escuro mas eu canto,

porque a manhã vai chegar.

Vem ver comigo, companheiro,

a cor do mundo mudar.

Vale a pena não dormir para esperar

a cor do mundo mudar.

Já é madrugada,

vem o sol, quero alegria,

que é para esquecer o que eu sofria.

Quem sofre fica acordado

defendendo o coração.

Vamos juntos, multidão,

trabalhar pela alegria,

amanhã é um novo dia.[4]

 

Faz escuro mas eu canto! Assim é a teopoesia escrita durante a noite!

Uma canção feita e cantada no escuro.

Que espera pela luz da manhã.

Que não quer dormir porque o dia enseja um novo mundo, uma nova vida.

Um mundo onde a dor ficou pra trás e eis que tudo se fez novo.

O canto da teopoesia é como o choro que dura uma noite mas traz consigo a alegria da manhã.

Como as aves que agitam suas asas no meio da escuridão

Porque sabem que o sol está a caminho (Tagore)

 

Cantamos no meio da noite. Não como aqueles que tem medo da noite, mas como aqueles que de tanta escuridão, aprenderam a ver além das penumbras.  Fundamentalmente, cantamos durante a noite para mantermos vigília pelo nosso povo.

E nossa vigília é feita de canções, rezas organizações, escutações profundas, compartilhamentos, solidariedades. Até o sol se por pela manhã para então fazermos as greves, a queimação de pneus na pista, os atos políticos, as resistências, reinvidicações e demandas.

 

Somente a teopoesia para nos fazer ouvir o que nunca fomos ensinados a ouvir e a cantar p que as palavras não sabem dizer. No silêncio da noite podemos ouvir a terra, os rios, as árvores, e esperar pela canção dos pássaros. Não só os pobres mas a terra sofre dores indizíveis que precisamos ouvir. E chorar. E orar junto, e pedir perdão e misericórdia. À notie choramos nossos mortos e a terra que morre a cada dia, a cada noite.

 

Assim, o fazer teopoético durante a noite se transforma em acompanhamento e presença. Velando pela terra e por aqueles que durante o dia usaram todas as suas energias trabalhando duro, se protegendo das flechas do mal, se segurando vivos no meio da necropolítica do estado e das instituições financeiras. Teopoesia é presença e acompanhamento, consolo e cura mútua.

 

Teopoesia é escutar as árvores, é caminhar com as formigas, é esperar pelo tecer da teia da aranha, é ouvir o canto dos pássaros, é perceber o crescimento das árvores, é acompanhar as sementes até o botão, é arar a terra como quem afofa o travesseiro. A teopoesia tem por missão nos fazer tão conectados com a terra que seu resultado é nos dar asas, pra cantar o que a gente não sabe dizer. O poeta Russo Boris Vadimovich Sokolov do século XIX nos ajuda a entender o movimento da natureza e da poesia:

 

O que cantam os pássaros

Para amortecer o machado?

À perigosa serpente? Ao fim irreversível?

O que cantam os pássaros

Ao sol que rasga a tempestade?

À certeza de serem escolhidos?

Aos filhos que voam pela primeira vez?

Cantam aquilo

Que palavra não consegue dizer.

Você também cantaria se tivesse asas.[5]

 

A teopoesia litúrgica nos ajuda a fazer perguntas que direcionam nosso viver. Nos ajuda a cantar e o que cantar. A teopoesia litúrgica cria as místicas e distribui as oferendas, honra os vivos daqui e os mortos de lá, se entranha nas energias dos espíritos e aprende que o respirar e suspirar e conspirar acontece sempre ao mesmo tempo e de uma vez. Como nos ajuda Ivone Gebara:

 

Deus respiração, aspiração, expiração, con-spiração; Deus ausência, presença, consolo, lamento, revolta, vingança, ação de graças. Nós Deus, Deus Nós, Conosco… no céu, na terra, no cosmos, no Mistério Infinito, na Grande Aventura da Vida, da Morte. Deus para além das religiões e Deus na religião, na ligação de tudo com tudo, de todas com todos. Deus Energia perpassando misteriosamente tudo o que existe. Deus sem uma vontade, mas com vontades. Deus sem um projeto, mas com muitos. Deus sem uma cara, mas com mil caras. Deus sem uma voz, mas com mil vozes afinadas, desafinadas, abafadas, desatinadas, desespera  das, consoladas, temas, apaixonadas… Deus Vida na vida e na morte, na dura sorte de cada dia. Deus, Deslumbramento, Desdobramento, Encantamento, Atração, Silêncio, Gemido, Clamor, Saudade, Mistério Maior. Deus Justi  ça, Compaixão, Paixão, Paz. Deus para além do discurso, mis  turado ao discurso. Deus de mil nomes e Deus inomável. Deus em tudo e para além de tudo. Essa fala desarrumada sobre Deus, inspirada pelo clamor cotidiano dos pobres, delineia a intuição ecofeminista do divino perpassando tudo o que existe. Essa fala revela a impossibilidade dos discursos absolutos sobre Deus e de aceitar a imposição das religiões patriarcais no seu afã de fazer passar suas teorias sobre Deus e ajustá-las a diferentes ideologias.[6]

 

Com a teopoesia, cantamos uma canção de cuidado à terra e aos pobres. Cuidamos da terra e dos pobres que tiveram seus valores subtraídos, sua dignidade extorquida, que apanharam, que foram abusados, presos sem direitos, linchados, queimados, torturados, escravizados, arrancados de suas pertenças, mantidos na sarjeta dos processos econômicos, vilipendiados em sua dignidade, envergonhados, currados e ameaçados.

 

Cantamos no meio da noite de olho nas fronteiras das terras indígenas que são saqueadas por fazendeiros grileiros e o povo do agronegócio. Cantamos no meio da noite chorando o desastre dos correntões arrancando tudo da terra no arrepio dos tratores e das correntes que a tudo matam e destróem. Cantamos no meio da noite como vigias dos corpos de nossas crianças pobres para que não tenham seus corpos mordidos por ratos ou visitados por baratas. Velamos o sono de nossas crianças com canções de ninar para que seus fantasmas não tenham tanta força.

 

Pois teopoiesis é manufaturar o tempo de resistência e criar espaços de acolhida. Teopoiesis é criar torres de vigia com faróis que acendem os desertos e os oceanos, para guiarem quem está preso, perdido em algum lugar ou quem procura o caminho de volta para casa. Como diz Nancy Cardoso:

 

Na luta do povo nem sempre os tempos podem ser ordenados, nem tudo pode ser planejado. As intervenções e ações obedecem a um plano, um traçado de intenções. Estas intenções estão articuladas por processos de formação e informação que respondem aos desafios do enfrentamento cotidiano e histórico dos movimentos classistas. Questões imediatas de resistência e sobrevivência dos movimentos interagem com os horizontes mais amplos da luta de emancipação das maiorias. Entre uma coisa e outra os processos de formação e informação precisam criar identidade, criar organicidade, mas é a ação direta mesmo que formata na prática as concepções e as mediações de luta, de organização, de vida e de povo.[7]

 

A liturgia da teopoesia é assim o que-fazer da teopoesia: silêncio, canções, pausas, contemplação, gestos, objetos presença, mística, lamento, compartilhar, nascimentos e funerais, caminhadas, plantações, celebrações, vivenciando o possível e o impossível da noite para se fazer possível durante o dia. É a vela que brilha na noite, a canção que se ouve ao longe, o rumor de vozes suaves que embalam as crianças, a conversa rarefeita na sala, o cheiro do bolo e do café na cozinha, a oração sussurrada no quarto, os gemidos dos orgasmos, o clamor da madrugada, o choro da noite, os gritos da manhã. Em tudo, a vida vivida junto. Como diz Nancy Cardoso desde sua prática profunda com o povo pobre:

 

Pneus, pedras e paus. Pode.

Baldes, cuias, tachos e panelas: também pode!

Cachos de bananas. Sandálias. Chinelos, também.

Livros, Bíblia, poesia rabiscada num papel. Pode!

E a terra! nacos, torrão, punhado, empedrada, poeirenta, montes, rastros.  

Sentida toda de chão.

E a água: molhada de canecas, potes, bacias, garrafas, copos e mãos. 

Suada de sede sempre.

Na mística da luta do povo as coisas, os tempos e os corpos se oferecem como a fome e a vontade de comer, o prato e o que é comido. 

 

A mística da liturgia é assim, a multiplicidade de corpos em movimento com o que se tem à mão. Formas celebrativas que ordenam a vida no meio da noite e durante o dia, que ampliam pertenças, que abrem caminhos, que intersecionam vulnerabilidades, que pensam as trincheiras, que criam espaços e ampliam a gramática da fala, dos sentimentos, dos sonhos, do representável que queremos e o irrepresentável do que somos. Liturgias assim são caminhos de testemunhos conjuntos para guardar quem chega pra comer e dormir, guardando a noite, mantendo os corpos arrebentados com unguento de cura e quentura no meio da noite, criando redes para os mais vulneráveis para que então restabelecidos, as redes de força e labuta se façam mais fortes.

 

A liturgia da teopoesia é militante e sabe onde está seus compromissos e lealdades, juntos com os pobres e perseguidos. Desde os tempos iniciais da igreja de Jesus Cristo. Não podemos nos esquecer que somos herdeiros da igreja perseguida, das catacumbas e é dessa igreja e estética dos perseguidos que devemos ser fiéis e não da igreja do império Romano que desde então sempre se mancomunou com poderes e benesses. Jaci Maraschin já alinhavava a estética da igreja cristã que sempre foi a estética dos pobres. Dizia ele:

 

A Igreja sempre celebrou a liturgia cercada de elementos sensíveis que, nas catacumbas, eram buracos, corredores de labirinto e tochas. Os espaços sufocantes significavam a perseguição sofrida e afirmavam a possibilidade da comunidade mesmo no meio das mais adversas condições. O povo cantava nesses túneis sem fim e dizia os salmos com a esperança do mesmo povo do deserto.[8]

 

Assim insistimos em descobrir a escuridão dentro da luz do dia e a luz que vive na noite, para juntos nos empoderarmos para que os pobres saiam das sombras do esquecimento de nossa sociedade. Porque nossa busca não é a meta-física mas a meta-praxis, movimentos de emancipação que ordenam o pensamento a partir da prática que está sempre saturada das necessidades mais viscerais do povo. A meta-praxis da liturgia teopoética cria tanto um sujeito histórico politizado quanto um sujeito que lida com suas questões mais profundas. A teopoesia deve criar uma gramática que nos ajude a lidar com as perdas, com os desesperos, as ansiedades, as depressões, os dejetos, as traições, o ódio contra os mais pobres e contra nós mesmos e nos ajuda a assumir um lugar tanto de ação quanto de compaixão. Mas como fazemos isso?

 

Gustavo Gutierrez disse uma vez: “Você sabe, nós trabalhamos muito durante o dia com aqueles que estão sofrendo. Ao final do dia, quando já estamos exaustos, nos sentamos e escrevemos, imaginando o que foi o dia, fazendo planos para o amanhã ver o que Deus tem a ver com isso. Essa é a proposta da teologia da libertação: Escrever a noite, no suor do cansaço, na exaustão do corpo. Talvez estejamos precisando de uma teologia da libertação poética que possa se aventurar para dentro das horas da noite, nos “porões da humanidade.”

 

Enquanto uns dormem, outros mantém a vigília.  E assim revezamos.

Enquanto uns levam a água na cabeça os outros esquentam o resto da água do balde.

Enquanto uns saem para arar a terra os outros levam as crianças na escola.

Enquanto uns fazem barreira contra a expulsão de terras férteis e já plantadas, outros buscam nos advogados formas de se buscar a proteção da lei.

Enquanto uns sangram, outros proliferam as mensagens de vida e justiça. E a cada dia vivemos:

Para testemunhar aqueles que estão exaustos,

Para honrar a vida daqueles que foram assassinados

Para sustentar aqueles que estão frágeis,

Para levantar aqueles que caíram,

Para curar aqueles que foram machucados,

Para cantar a quem está com medo,

Para orar por quem está aflito,

Para amparar a quem se sente sozinho.

 

Porque cada dia será o de alguém ficar exausto e frágil. A cada um o dia da queda e do esgotamento, do medo e da paralisia. A cada um uma oração, uma vela, um canto, uma presença.

Por isso ficamos acordados. Vigiando aqueles cujas vidas estão além de qualquer senso de justiça. E assim cantamos e trabalhamos e descansamos a noite inteira tentando descobrir a vida e a morte através da nossa solidão acompanhada. Não é a toa que Dom Pedro Casaldáliga desenvolve a teologia dos mártires, porque seu povo é assassinado sempre e o sangue deles se fazem sementes que são plantadas durante as celebrações em todos os corações.

 

A noite é fundamental para que estejamos prontos pela manhã. Preparados durante a noite pelo sono, o alimento, o cerco e o cuidado, a oferenda, a oração, o canto, o banho e o café, estaremos prontos para o novo dia que se enseja nessa batalha sem fim. Essa é a estética da noite e da pobreza, o espaço onde organizamos nossa vida. Como Jaci Maraschin nos lembra:

 

A primeira manifestação estética da comuni­dade popular é o espaço onde o povo se encontra. Trata‑se do “espaço da liturgia”. Esse espaço é marcado pela necessidade do canto, da audição da palavra, da participação no sacramento e pela manifestação do poder do Espírito Santo na congregação. Prescinde dos ornamentos caros e do luxo. Essa estética da pobreza descobre os seus próprios jeitos e eclode nos gestos dos celebrantes e dos participantes e transparece nos rostos alegres dos que se dedicam a louvar a Deus.[9]

 

Não precisamos de nada além de nós mesmos. Nossos objetos litúrgicos sagrados será o que temos à mão. Como quando participava de uma comunidade de moradores de rua na Filadélfia nos Estados Unidos. A pastora Vitória não estava preparada para a eucaristia e disse que não tinha nem pão nem vinho. Quando então um dos participantes gritou: “Pastora eu tenho pão pra todo mundo.” E outro disse eu tenho suco de laranja, serve? E do pão embolorado e do suco de laranja já vencido, tomamos a ceia, cantamos, oramos, choramos, sorrimos e assim nos sustentamos tanto da santa ceia quanto da comunidade que fez a santa ceia. Ali nos protegemos, ali nos guardamos ali nos alimentamos mutuamente.

 

Maraschin buscava o canto do povo, “criado pelo povo ou inspirado nas suas necessidades e formas de expressão, reveste se de autenticidade e de beleza ao ser o que é na sua harmonia e na sua verdade.”[10]Esse canto de beleza é o sustento litúrgico porque é a estética da verdade vivida pelo povo e se manifesta como revelação. Essa estética dos pobres é reveladora, como ele mesmo diz:

 

A estética liga se à verdade da coisa. Ela é, de certa forma o momento da revelação do mundo. Quando pintamos ou escrevemos música, ou cantamos, ou fazemos poesia, revelamos o mundo, ou melhor, o mundo se revela em nós. É por isso também, que a obra criada nos dá. alegria. E a liturgia é isso. É, além de tudo o mais que possa ser, na sua profundidade; uma espécie de obra de arte que revela o mundo de Deus. Mas não o revela na forma de narrativa intelectualizada. Revela o no interior de nosso próprio ser. E o revela não apenas na nossa interioridade mas também no âmbito da comunidade.[11]

 

Essa hermenêutica da revelação alinhava o dia e a noite, a interioridade e a exterioridade, o indivíduo e o coletivo em processos estéticos que prescindem da dicotomia da high arte low artda estética modernista. Para além desses dualismos, Jaci Maraschin busca uma hermenêutica litúrgica que se enrosque no mundo como alternativa e promessa. Alternativa da fé que articula a possibilidade de crer e esperar por um mundo que pode ser criado e vivido. Assim a liturgia é espaço de utopia e de realidade, pela correlação entre o ser humano, o mundo e a Palavra de Deus que vãos e atualizando pelas necessidades mais emergentes e pelos mais necessitados.

 

No espaço litúrgico da utopia e da criação das alternativas de vida, seja nas casas ou nas igrejas, nos encontros em salões, nas ruas e nas esquinas, tudo precisa ser lembrado a partir da presença da terra. Pois qualquer utopia e alternativa ao que vivemos somente se fará real se nos lembramos de nossa mais profunda conecção com a terra. Como dizia Gilberto Gil “E quanto mais longe da terra, Tanto mais longe de Deus,” ou seja qualquer movimento de adoração a Deus deve ser um movimento entre as estrelas e as raízes, o céu e a terra. Assim, a celebração da santa ceia que nos pede para levantar nossos corações ao alto também nos pede para colocarmos a mão na terra. A terra como nossa morada, nosso espaço sagrado. Maraschin sabia disso quando disse:

 

Não há nada mais belo do que os elementos da natureza. As flores, os ramos verdes, a água da fonte, o fogo das tochas e das velas, o canto livre da música brasileira, a veste e o calor humano, são dádivas de Deus para que os organizemos na forma da liturgia e ofereçamos do meio da nossa pobreza a estética viva da adoração.[12]

 

No espaço litúrgico brincamos, celebramos, rimos, inventamos, tendo nossos corpos como locus interpretativo, critério e situação. E de tanto lidar com o impossível e o imprevisível, lidamos com o que ele também chamava de liturgia nonsense mas aqui com um viés interpretativo. Se pra Maraschin a liturgia era nonsense porque ela se bastava a si mesma e não se dava a explicações ou racionalidades de significado, A liturgia buscada aqui é nonsense porque loucura para o mundo. Uma liturgia que nos faz viver a vida plena no mistério da vida e no mistério de Deus. Liturgia que ajuda a sobreviver quando os poderes do mundo e a necrofilia política tem como alvo e razão “matar pelo menos 30 mil” ou “atirar em favelas de helicóptero” ou “fazer as minorias aceitar as maiorias ou serão eliminadas,” ou fazer da polícia o que ela foi chamada a fazer, matar.[13]Assim a liturgia é nonsense porque ela canta e ora dizendo: Sobreviveremos os atentados diários! Lutaremos por nossa vida e terra! Não passaremos fome! Conquistaremos nossos espaços! Nossos filhos verão a luz do dia e o nascimento de seus netos em liberdade!

 

James Baldwin escreveu uma linda carta para Angela Davis acerca da labuta dos negros nos Estados Unidos. Bem no final da carta ele diz assim:

 

Se sabemos disso, então devemos lutar por sua vida como se fosse nossa – o que é – e tornar intransponível em nossos corpos o corredor para a câmara de gás. Pois, se eles te levarem de manhã, eles virão nos buscar pela noite.[14]

 

Por isso o dia e a noite se pertencem. O cuidado emocional e espiritual do corpo e da alma são fundamentais durante a noite para a luta da manhã. Porque os sistemas de destruição funcionam tanto durante o dia quanto a noite. Durante o dia exploram os corpos dos pobres e a noite queimam as favelas pelo valor imobiliário. Nós sabemos da noite e do dia, vivemos do claro-escuro e do escuro-claro, os limiares entre as certezas e os devaneios. Vivenciamos nossa verdade em meio as sombras e as luzes.

 

De noite, ficamos acordados vigiando as portas daqueles que têm casas somos o sangue no umbral das portas para que o anjos da morte por desnutrição, exaustão, febre ou desolação não venham e tirem as vidas de nossos mais vulneráveis. De noite, ficamos acordados vigiando os corpos dos sem-teto para que não sejam atacados por cães raivosos e abutres vorazes advindos das classes mais ricas, da polícia, do estado fascista, ou da traição daqueles que entre nós preferem se vender e servir os que nos matam.

 

Acampamos junto com aqueles que vivem em tendas de plástico como o povo do movimento dos sem-terra. Para que durante o dia continuemos o trabalho do agir-pensar-sentir. Durante o dia e a noite buscamos a história e sua dialética para que a morte e a perda não reinem suprema. Trabalhamos no rigor da vida e da ciência para que nossa luta não seja nem fraca, nem aleatória e nem sem substância. Não nos entregamos as armas de nosso tempo: as assombrações do medo e as distrações do auto-gozo. Não viveremos de esperanças que nascem do medo nem de tentar consumir desejos de outros que querem nos controlar. Criaremos ao invés, corpos políticos de solidariedade e extensão e entrelaçamento de unidades múltiplas. Os lugares de fala não serão fins em si mesmos porque excludentes em si mesmos, mas lugares de fala a partir de lugares que se estendem e se conectam.

 

No meio do rigor e da luta, apesar de perder e morrer, vencemos e vivemos assim como Jesus, que morreu para que vivamos. E que perdendo, nos ensinou que assim ganhávamos. Sua vida e morte e ressureição nos ensina. Que a vida continua na morte e a morte é semente de vida. Que o que não é será. Que o poder que assombra se dobrará. E o todo-poderoso se envergonhará. A violência se tornará jardins floridos. As minorias serão maiorias unidas, longe da lógica do império que divide e conquista. Os presos serão libertados. Os desvalidos ganharão forças. E o que assusta se amedrontará.

 

Caminhamos com os vencidos e os desvalidos. Porque a vitória e a força estão com eles. Somos todos indivíduos, juntos na luta histórica. Com os desvalidos e todos os arrebentados, o esquecimento se faz memória, e o carvão entumecido e encharcado pelo sistema econômico e fascista de opressão, reacende e faz o fogo alto da resistência. Como disse Vladimir Safatle:

 

No interior deste horizonte, não é de se estranhar que a pratica politica acabe por se reduzir atualmente, em larga medida, ao bloqueio de espaços físicos, ao fechamento da circulação, à paralisação. Estas são manifestações brutas da indignação de quem se sente lesado e esquecido e calcula a partir do dano necessário a fazer para ser visto. Mas a politica não é apenas exposição da indignação, embora isso também lhe seja próprio. Ela é, no seu sentido mais profundo, conquista da opinião pública, produção de aglutinações através da emergência de um sujeito dotado de imaginação política capaz de implicar qualquer um.[15]

 

Essa imaginação política precisa considerar a terra como organismo participante das formas de existência e resistência. Pois o material mais profundo da teopoesia é húmus, a terra. No húmus, a vida toda plena. Ali esta o pó das estrelas. Em cada folha e em cada , assim como nos mares e nos ricos, nossos sustento nossa capacidade de viver, nossa origem e nosso fim. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Nessa terra nos perguntamos pelos excrementos da nossa sociedade. Os pobres como excrementos, são fezes do corpo societal que precisam ser descartados como excessos. A merda que o corpo social cagou. Mas toda a bosta do mundo é o lugar de Deus. Por isso que a óstia que comemos, Deus conosco, vira merda. Sagrada que é. Da merda, o fenômeno de Deus no mundo. Como seria bom se Jean Luc Marion falasse sobre os pobres como o “fenômeno saturado”[16]do sistema e não Deus como esse fenômeno saturado de givennes, de doação absoluta. Pois o sistema usa os pobres como doação absoluta, usurpando e transformando em merda a vida dos pobres para depois descarregar e usar como descarga seus excessos.

 

Quem são os “fenômenos saturados: de nosso tempo? Os imigrantes indocumentados, os negros, as mulheres, os índios, as crianças. Qualquer pobre. Excessos necessários para manter a economia funcionando e tornados excessivos e descartados.

 

A teopoesia nos ajuda a direcionar a bondade e graça excessiva de Deus exatamente àqueles que o sistema não tem interesse nenhum. A teopoesia aponta para onde os violentados pela militarização. Lá onde os pobres sofrem com o fascismo e a violência. A teopoesia tem que fazer frente ao fascismo de nosso tempo. Com palavras de vida contra palavras de morte. Palavras de ordem e transformação contra palavras de ódio, raiva e destruição.

 

Assim, aprendemos a pensar no contra-tempo e na contra-afeição dos nossos tempos. Como o apóstolo Paulo no fala 2 Coríntios 6 na tradução de Nancy Cardoso:

É preciso de cuidar

em muita perseverança; em sofrimentos, privações e tristezas;

em açoites, prisões e tumultos; em trabalhos árduos, noites sem dormir e jejuns;

em pureza, conhecimento, paciência e bondade; no Espírito da história e no amor sincero;

na palavra da verdade e no poder de Deus; com as armas da justiça, quer de ataque, quer de defesa;

por honra e por desonra; por difamação e por boa fama; tidos por enganadores, sendo verdadeiros;

como desconhecidos, apesar de bem conhecidos; como morrendo, mas eis que vivemos; espancados, mas não mortos;

  • entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nós não temos nada, mas nós possuímos tudo.”[17]

 

Pois a teopoesia é luta renhida contra racionalismos emputrefados, feitos de ademicismos distantes da realidade que pulsa, contra patriarcalismos que mantém as estruturas desiguais de poder masculinos que não permitem nem a presença de mulheres nem de sexualidades múltiplas, contra culturalismos que não consideram a terra como fator fundamental do pensamento, contra o pensamento branco que vive da indiferença da presença dos povos indígenas e contra racismos tão perversos e profundos que se manifestam pela ausência completa de conscientização e assim formam presenças viscerais que participam da exclusão e da morte.

 

A teopoesia luta para não perder a dialética, para não sermos consumidos pelo pensamento único, pensamentos esses que entregam racionalidades ao altar dos pensamentos despóticos e universalizantes que com sua força de abstração e violência concreta nos forçam a dizer e pensar e sentir que outra coisa, outro mundo, outra possibilidade não há. Que os vencidos serão sempre vencidos e os vencedores sempre vencerão!

 

A teopoesia é a voz dos descartados da nossa sociedade que diante do não cotidiano às suas vidas, dizem sim, estamos aqui! Voz contra a morte de todo dia que diz: vivos, não morreremos tão facilmente! Diante de corpos incinerados, moídos, currados e destruídos, a teopoesia nos lembra da fé na ressurreição do corpo! Todo dia! Nosso corpo! Corpo individual e coletivo. Ubuntu! “Não somos nós” mas sim os outros e esse é o marco teórico da teopoesia. É para os outros que lutamos, é para a vida dos outros que vivemos.

 

A teopoesia assim é um suspiro, um respiro dobrado porque respirado junto. Num mundo sem coração, a teopoesia é a sístole e a diástole do sistema político-corpóreo. Nossa respiração aponta para a falta de ar na injustiça econômica do capitalismo. Na poluição do mundo, não queremos pastores ou padres que apoiem fascistas que fazem campanha de morte a gays, a mulheres e negros com suas pregações armadas de referência pessoal e de servidão política. A teopoesia é a busca não dos nossos desejos, mas a respiração junta que produz vive comum com decência e dignidade.

 

A teopoesia aprende com o Budismo onde a respiração é o encontro entre o corpo e a mente, realinhando dicotomias gregas. Respiramos juntos, mente e corpo, para dar conta da angústia, para reconectar a divisão entre o corpo e a terra, o coração e a mente, eu e você. O iluminismos assim está dentro-fora sem essa divisão, na unidade de nós com o cosmos. Assim nossa respiração é conspiração porque respiração con-junta.

 

Nossos corpos juntos com o corpo de toda a terra, corpo de Deus, com animais e criaturas todas, ar e água, unidos no húmus da vida. A partir da respiração conjunta com a terra, redimensionamos e redemocratizamos o direito de todos, inclusive os sistemas bio-diversos. Democracia não é só uma arte humana (homo sapiens) mas deve assumir uma dimensão pluri-humanitaria e mesmo planetária. Se assim for, a liturgia da teo-poesia tem que nos fazer botar as mãos na terra, andar descalços, plantar girassóis, socar as raízes da mandioca e honrar o chão que pisamos. Todo sacramentalizado. A liturgia deve também ser capaz de nos fazer cantar e con-clamar juntos pela vida que vai e vem em cada canto de pássaro e semente que brota. Imagens e cuidado de contemplação e relação profunda com a terra. Ensinar nossos desejos a serem os desejos da terra. Desejos de vida plena para os animais, para a terra e também para os humanos. Para que nossos sonhos não sejam somente acerca de nós mesmos.

 

Vivemos a noite não com medo mas como quem sabe que a noite alimenta a alma para o dia que vem. Mas também vivemos a noite como alternativa e resistência: na noite nos escondendo, não nos revelando completamente, somos outros, encarnamos outras personas, imaginamos outras vidas, viramos fantasmas para os ricos, enganando as luzes que tentam dissipar a escuridão. E durante a noite dançamos para o dia chegar. Pois eu aprendi com meu povo que pode estar escuro, mas nós podemos cantar.

Se nos tornam lixo excessivo e descartável, assumimos a honra e a glória que vem de Deus.

Há tristeza sim, mas não deixamos de nos alegrar.

Há medo no escuro, mas os afastamos com nossas risadas.

 

Vida e morte. Combinado nesta dança comunitária, a sobrevivência da alegria.

Dançamos nossa tristeza. Dançamos com a morte. E ensinamos a morte a dançar conosco até nos tornarmos amigos. E assim continuamos a dançar hasta que salga el sol, até o sol nascer

 

Como diz a canção:

 

Quando amanhecer

não tire uma soneca

Pois quando o sol vem de manhã

É o começo da festa

A rua inteira está cheia

música que nos faz dançar

em um ritmo que queima

todas as mãos para cima!

vamos dançar e pular

até que esse som atravesse nossas veias

a festa é por 7 dias

até o nascer do sol

 

la fiesta es por 7 días

hasta que salga el sol[18]

 

Durante a noite cantaremos e amaremos! Faremos amor sem parar, amando a nós, os outros e a terra. Pois como dizia Nietzsche:

 

É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes. E também a minha alma é uma fonte borbulhante. É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam. E também a minha alma é o canto de alguém que ama.[19]

 

Pois assim somos. Temos tanto a alma quanto o canto e a dança da noite. Não nos entregamos jamais! Pois não somos feitos de sentimentalidades somente. Somos feitos de casca grossa de quem vê a morte cantar seu canto no nosso telhado e beber da água do nosso poço todo dia. As vezes choramos mas a vezes não. Preparamos a vida e as estórias da vida pra contar toda noite. E assim vivemos de consertar e remediar e refazer o que se desfez. Na história da vida e da morte. Como canta Jair Rodriguez:

 

Aprendi a dizer não,

ver a morte sem chorar

E a morte, o destino, tudo,

a morte e o destino, tudo

Estava fora do lugar,

eu vivo pra consertar[20]

 

Dançaremos e brincaremos por sete dias e depois mais sete e mais sete até serem 70 vezes 7. Celebraremos em a vida em mil liturgias! Poetisaremos e liturgizaremos a vida que vai se ouriçando diante de nós de tantas formas e jeitos e cores e gostos e suores e sentimentos e pensamentos. Junto de Deus! E na noite da desgraça? Cantaremos o que não sabemos dizer.

 

Nosso Deus é o Deus da noite!

Nossa estética é a estética da noite e dos que sobrevivem.

Na noite nos protegemos. Na noite enganamos quem precisar.

Na noite nos fazemos o que necessitamos.

Na noite nos guardarmos quem mais precisa.

Na noite nos organizarmos melhor.

Com fé e coragem! Com cantos e orações! Unguentos e curas!

Pois nossa canção é e sempre será:

 

Faz escuro mas eu canto,

porque a manhã vai chegar.

 

[1]https://terradedireitos.org.br/uploads/arquivos/09-12_Racismo-e-Violencia-Quilombola_CONAQ_Terra-de-Direitos_FN_REVISAO_Digital-(1).pdf

[2]Roger Douglas citado por Serge Halimi in “A Ofensiva Geral,” Le Monde Diplomatique Brasil, Edição – 128, Março 2, 2018, https://diplomatique.org.br/a-ofensiva-geral/

[3]Dorothee Soelle, Beyond Mere Obedience(New York Pilgrim Press, 1982).

[4]https://www.youtube.com/watch?v=qsEzbuk9FVg

[5]Boris Vadimovich Sokolov, citado em William Wagner, O Maestro, O Cuco e a Lenda(São Paulo: Texugo Editora, 2017), 6.

[6]Gebara, Ivone. Teologia Ecofeminista. Ensaio para repensar o Conhecimento e a Religião(São Paulo: Olho D’Agua, 1997), 124-125.

[7]Pereira, Nancy Cardoso, “Transformai As Velhas Formas Do Viver: A Mística Da Luta Do Povo E A Religião Sem Nome.” In: Claudio Carvalhaes. (Org.).Teologia Do Culto: Entre O Altar E O Mundo, Estudos Multidisciplinares Em Homenagem A Jaci C. Maraschin. (São Paulo: Fonte Editorial, 2012), 169.

[8]Jaci Maraschin, A Estética Dos Pobres, não publicado.

[9]Ibid.

[10]Ibid.

[11]Ibid.

[12]Ibid.

[13]Frases do Deputado Federal Jair Bolsonaro.

[14]James Baldwin, An Open Letter to My Sister, Miss Angela Davis

https://www.nybooks.com/articles/1971/01/07/an-open-letter-to-my-sister-miss-angela-davis/

[15]Vladimir Safatle, Quando As Ruas Queimam: Manifesto Pela Emergência, 2018, n-1ediçnoes.org.

[16]Jean-Luc Marion, In Excess: Studies of Saturated Phenomena(New York: Fordham University Press, 2004).

[17]Nancy Cardoso, Facebook, 7 de outubro de 2018.

[18]Don Omar, “Hasta Que Salga El Sol,” in Don Omar Presents: Meet The Orphans 2 – New Generation(2012).

[19]Nietzsche, Frederico, Assim Falava Zaratustra, tradução de José Mendes de Souza, www.ebooksbrasil.org, 2002, p 162 http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/zara.pdf

[20]Jair Rodrigues, “Disparada,”Álbum500 Anos de Folia(Ao Vivo), 1999.

  • Para tempos sombrios, um capítulo do livro “Religião, Liturgia e Arte: Correlações” (Fonte Editorial 2018) que será lançado em dezembro em São Paulo. Trata-se de se tentar buscar uma estética da teologia da libertação a partir da metáfora da noite.